31.7.20

Mais 500 milhões de pobres. Países em desenvolvimento enfrentam “tempestade perfeita”

Pedro Mesquita , com redação, in RR

Diretor-geral de Desenvolvimento e Cooperação da OCDE considera que os países ricos têm a obrigação ética e moral de ajudar as nações em vias de desenvolvimento a evitar uma catástrofe com ondas de choque à escala do planeta. "Este é o momento da verdade", alerta.

Os países em vias de desenvolvimento enfrentam uma “tempestade quase perfeita”, por causa da pandemia de Covid-19, e o mundo pode chegar ao fim do ano com mais 500 milhões de pobres. O alerta é deixado em entrevista à Renascença por Jorge Moreira da Silva, diretor-geral de Desenvolvimento e Cooperação da OCDE.

“Estamos perante um risco muito sério da pobreza à escala global. Estamos perante a circunstância de, até ao final do ano, temos 500 milhões de novos pobres, dos quais 130 milhões em situação de pobreza extrema”, afirma o antigo ministro do Ambiente.

É a primeira vez em mais de três décadas em que o mundo enfrenta “um aumento da pobreza” e os países em vias de desenvolvimento “estão num contexto de uma tempestade quase perfeita”.

Jorge Moreira da Silva explica que, por um lado, estas nações mais pobres estão a receber menos investimento e ajudas dos países mais ricos por causa da crise mundial e, por outro, arrecadam menos receitas devido à descida do preço das matérias-primas, como o petróleo.

“Estes países estão perante a iminência de uma quebra de 700 mil milhões de dólares em fluxos financeiros, este ano, muito em função da quebra de investimento direto estrangeiro, do turismo, da quebra do comércio externo”, sustenta.

O diretor-geral de Desenvolvimento e Cooperação da OCDE recorda que o mundo é feito de interdependências e que, na altura da crise financeira de 2009, foi importante para as empresas portuguesas exportar para os países em vias de desenvolvimento.

“Não haverá crescimento a nível global, incluindo em Portugal e na OCDE, se não houver crescimento também nos países em vias de desenvolvimento”, sublinha Jorge Moreira da Silva.

Apoiar os países em vias de desenvolvimento é fundamental, por razões éticas e morais, defende o responsável, mas também por interesse dos países do Norte.

“Se não houver um apoio a estes países a pandemia não será debelada, mas também precisamos de os apoiar na recuperação da crise, porque é do nosso próprio interesse”, argumenta o responsável da OCDE, que fala “num momento da verdade”.

“Todos nos recordamos, há algumas décadas, do Live Aid, de várias iniciativas quando alguns países africanos estavam a passar por uma crise alimentar e de pobreza muito grande. Isto agora não é num país, não é num continente. É à escala global. Espero que os países da OCDE possam desenvolver iniciativas muito rápidas de apoio aos países em vias de desenvolvimento, nomeadamente o perdão da dívida”, defende Jorge Moreira da Silva.

Nesta entrevista à Renascença, o diretor-geral de Desenvolvimento e Cooperação da OCDE deixa um número paradigmático da situação atual de divisão: “nas últimas semanas, os países mais ricos arranjaram maneira de mobilizar 11 biliões de dólares de pacotes financeiros para estímulo às suas economias, a ajuda pública ao desenvolvimento é de 70 vezes menos”.