João Saramago / J.C.M. / A.M.R. / A.S.R., in Correio da Manhã
Pedir pão pela net
A crise económica, o agravar das taxas de juro ou a contratação de pessoas por empresas estrangeiras são responsáveis pelo aparecimento dos novos pobres. "São pessoas que tiveram uma vida confortável e que hoje recorrem ao Banco Alimentar através de pedidos por e-mail", disse ao CM Isabel Jonet, presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares.
Na Ericeira, concelho de Mafra, Dulce Gaspar, 52 anos, é um exemplo dos novos pobres. Proprietária da casa onde vive, sempre teve uma vida confortável. Dedicou-se a tempo inteiro à educação dos dois filhos, enquanto o marido, Joaquim Aníbal Gaspar, foi tripulante durante sete anos do navio de cruzeiro ‘Black Watch’.
Em Fevereiro de 2003, o marido sofreu um acidente vascular cerebral e um ataque cardíaco no meio do Oceano Pacífico. De regresso a Portugal, entretanto reformado por invalidez, com 253 euros, acabou por falecer vítima de um posterior ataque cardíaco a 1 de Julho último.
A facilidade com que numa economia aberta foi contratado para trabalhar no estrangeiro não teve paralelo quando chegou a hora de a mulher usufruir dos benefícios sociais resultantes dos descontos por si efectuados.
Viúva e vítima de cancro de mama, Dulce Gaspar ficou com uma reforma de 172 euros mais 9,10 euros do Rendimento Social de Inserção. Inconformada por a empresa proprietária do barco não ter reformado o marido, Dulce Gaspar recorreu à justiça portuguesa, mas foi informada que o caso tinha de ser resolvido na Inglaterra, país sede da companhia norueguesa Fred. Olsen Cruise Lines.
"Não tenho dinheiro para contratar um advogado em Inglaterra para reclamar a reforma. Sinto-me impotente perante uma empresa que é inglesa, mas cujos descontos foram feitos pelo sindicato norueguês, Norwegian Seafarer’s Union, com sede em Miami, nos Estados Unidos", acrescentou.
Com necessidade de se deslocar com frequência da Ericeira a Lisboa para a realização de tratamentos oncológicos, Dulce Gaspar confessa: "Estou sem dinheiro, nem chega para me tratar".
REDE EUROPEIA REVELA QUE HÁ FOME EM PORTUGAL
Portugal ocupa uma "posição muito desfavorável" na Europa no que respeita à pobreza, havendo pessoas com fome, afirmou ontem o vice-presidente da Rede Europeia Anti-Pobreza, Avides Moreira, em Viseu. Por sua vez, o padre Agostinho Jardim Moreira, presidente deste organismo, defende que o Governo "tem de criar rapidamente um Plano Nacional de Luta Contra a Pobreza e acabar com subsídios avulsos". "Os subsídios ajudam, mas não acabam com a pobreza", disse.
NÚMEROS
232 754
pessoas receberam, em 2007, diariamente alimentos do Banco Alimentar. São já mais de dois por cento da população, com tendência a aumentar.
19 919 toneladas de alimentos foram recolhidas no ano passado pelo Banco Alimentar nos 13 centros. Dia 16 abre um novo centro em Braga. Com 9,6 toneladas, o banco de Lisboa recolheu metade.
1542 instituições, sobretudo de apoio a idosos e crianças, recebem apoio do Banco Alimentar.
"É PRECISO MAIS AJUDA" (Isabel Jonet, Presidente do Banco Alimentar)
Correio da Manhã – Quando percebeu que existe uma nova realidade da pobreza em Portugal?
Isabel Jonet – 0 ano passado verifiquei essa realidade. São pessoas que estavam habituadas a dar e não a receber, que sempre viveram uma vida sem necessidades e que com o desemprego ou aumento das taxas de juro e consequente dificuldade em pagar as dívidas, começaram a contactar o Banco Alimentar e a pedir ajuda.
– É uma realidade crescente?
– Sim, e com o aumento das taxas de juros são mais as pessoas a precisar.
– 0s portugueses estão hoje mais solidários?
– 0s portugueses são solidários, sempre foram. Hoje há maior consciência de que um dia podemos ser nós a precisar. E as pessoas sabem que precisamos sempre de mais ajuda, porque estamos a crescer e a chegar a mais locais.
– Quando decorre a próxima recolha de alimentos?
– Será em Novembro, nos dias 29 e 30.
QUANDO O VERBO É UMA ARMA
Estuda Sociologia no ISCTE e sonha trabalhar em prol dos outros. Fábio Balsa, de 24 anos, gostaria de ajudar os excluídos. Nas horas livres, a ideia é continuar a ser um MC underground – como se chamam os rappers que preferem manter-se alheados da faceta comercial. "Não quero, de modo algum, depender do negócio da música, daí ter feito uma opção séria nos estudos", conta quem decidiu participar no Hip Hop Pobreza Stop por insistência de amigos e da própria mãe.
"Toda a gente sabe que eu escrevo, e quando vi que a temática era a pobreza abri a gaveta onde tenho mais de vinte canções e escolhi a apropriada", revela. O tema ‘Mundo em que Nasci’ tem mais de um ano, mas escreve e compõe desde os 16, altura em que descobriu o hip hop. "Um amigo meu deu-me a ouvir um disco dos Da Weasel. Fiquei fascinado, mas depois, através da Antena 3, conheci o hip hop underground, que me interessou ainda mais." Vê-se a escrever livros num futuro longínquo – "quando tiver 40 ou 50 anos, e tiver vivido" – e crê no poder da palavra. "O verbo é uma arma", garante. "E não há nada tão revolucionário como o rap. Acredito que pode mudar o Mundo."
PARA TRANSMITIR SENTIMENTOS
Foram os Dealema que aos 13 anos assaltaram a mente de Joel Pinto e semearam a paixão pelo hip hop. Passados cinco anos, a admiração pela banda nortenha é tão grande que chega a afirmar: "Muitas decisões da minha vida foram influenciadas por eles." O Hip Hop Pobreza Stop é um escape do anonimato, agora que prepara a saída do primeiro EP. É um autodidacta que espera chegar longe na música.
O início não foi fácil. Parecia o patinho feio do grupo. "As pessoas só ouviam o que lhes punham no prato. Sempre procurei coisas diferentes e depois fui conhecendo pessoal do hip hop e do graffiti a quem me fui juntando", diz o aluno do 12º ano. Gosta de explorar estados de espírito. "Quero transmitir sentimentos e que as pessoas entendam o que eu penso", afirma quem é conhecido por ‘MC Lógico’.
A sua paixão envolve muito investimento pessoal, tendo de abdicar de muitas coisas. "Comecei por rimar com letras de outras pessoas e a escrever coisas minhas e só mais tarde é que passei para a produção. Prescindi de andar de skate, que era uma coisa de que gostava muito, mas para ter dinheiro tive de fazer uma opção pela música", sintetizou.
UM OLHAR SOBRE A IGNORÂNCIA
Uma criança pobre que chora perante um Mundo coberto de ignorância é o tema do graffiti de Marcos Barradas, de 19 anos. O estudante de Engenharia Informática, sempre de caneta e lápis no bolso, confessa, contudo, que não espera ser o vencedor do concurso. "Não vou lá para ganhar. Só me queria divulgar, especialmente no Norte, onde nunca pintei", refere ao CM. Sobre um fundo cinzento, a sua assinatura preencher-se-á de vermelho, laranja e amarelo.
DESENHO ENQUANTO PAIXÃO
Não sabe quando começou a desenhar – "a minha mãe diz que foi desde sempre" – mas há cinco anos que Luís Furtado, que tem o 6º ano e gostaria de voltar a estudar, "para tirar um curso de desenho e não ser só autodidacta", começou a pensar na arte "a sério": "Recebo muitas encomendas de gente que me pede para fazer quadros a carvão a partir de fotos." Trabalha numa empresa de distribuição de fruta para sustentar a mulher e o filho, de nove anos, "que também já rabisca".


