12.10.08

Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza: Faltam 5 dias

João Saramago / C.P. / J.C.M. / A.P, in Correio da Manhã

Casas ficam por pagar


Cresce o número de sobreendividados que recorrem à DECO para obter apoio a fim de renegociar o pagamento das dívidas aos bancos. Entre Janeiro e Setembro foram 1323 as pessoas que recorreram à Associação de Defesa do Consumidor. Mais 200 do que em igual período do ano passado. É o valor mais alto de sempre.

O agravar galopante das taxas de juro é a principal explicação para cada vez mais pessoas falharem as mensalidades. Algumas pessoas que pedem ajuda chegam a ter dez a 15 créditos, muitas acabam por não conseguir honrar os compromissos e perdem os bens. Com 50 anos, Clotilde Costa, divorciada com oito filhos, integra a lista dos que perderam a habitação por dívidas ao Fisco. "Nunca pensei passar por isto", conta depois de há um ano, a vivenda dos seus sonhos, em Brejos de Azeitão, concelho de Palmela, ter sido vendida.

Mergulhada em dívidas, Clotilde Costa, recorreu então à Protecção Jurídica, no Seixal, para poder impugnar a venda. O pedido viria a ser recusado, pelo que foi junto de pessoas amigas que Clotilde Costa conseguiu mil euros para um advogado tratar da impugnação.

Avaliada em 210 mil euros, a casa viria a ser vendida por 80 mil euros a fim de ser saldada uma dívida às Finanças de Setúbal de três mil euros. Clotilde impugnou a transacção porque alega que a venda foi realizada sem o seu conhecimento.

Recentemente operada à bexiga, Clotilde Costa diz que não tem condições para trabalhar pois necessita de criar cinco filhos menores. Junto da Segurança Social pediu pela segunda vez o Rendimento Social de Inserção. Há um ano, foi-lhe recusado por não estar inscrita num centro de emprego.

Vive da pensão que o ex-marido dá aos filhos. O casamento de 34 anos desfez-se na sequência das dificuldades económicas. O incumprimento das prestações da casa, que já não é sua, representa o acumular de uma dívida de 850 euros mensais.

FUTEBOL DOS SEM-ABRIGO

Dez equipas de nove distritos do Continente e dos Açores participam no Campeonato de Futebol de Rua, na Mealhada, que hoje termina. António Jorge Franco, vereador do Desporto da autarquia, considera a iniciativa importante para a inclusão social. O projecto promovido pela associação Cais decorre no jardim municipal da Mealhada e conta com cerca de cem participantes, homens e mulheres com mais de 16 anos que se encontrem em situação de pobreza ou exclusão social e sejam acompanhados por instituições de solidariedade.

NÚMEROS

133,17 mil milhões de euros deviam os portugueses aos bancos em Julho. Depósitos em contas-poupança valiam 108 mil milhões

2,7 mil milhões era o valor do crédito malparado em Julho. Um valor considerado baixo quando comparado com média europeia.

109,5 mil milhões de euros é o crédito destinado a compra de casa. É a fatia de leão, com 79,3 por cento do total da dívida.

"FAMÍLIAS NÃO SÃO OS ÚNICOS CULPADOS POR DÍVIDAS" (Catarina Frade, Directora Observatório Endividamento)

Correio da Manhã – O montante que os portugueses devem é preocupante?

Catarina Frade – O valor de incumprimento é historicamente baixo, o que representa que perante o agravar das taxas de juro as famílias estão a fazer um esforço enorme para honrar os seus compromissos. É preciso salientar que as famílias não são os únicos culpados por dívidas por cumprir. Cada processo é avaliado e só depois de ficar decidido que há capacidade para o pagamento do crédito é que este é atribuído.

– Qual a melhor altura para renegociar a dívida com o banco?

– É importante contactar o banco antes de entrar em incumprimento. As pessoas não devem deixar arrastar o problema e o mais importante é que não devem contrair novos créditos, por vezes com juros mais elevados, para pagar o crédito de habitação.

– A actual crise torna mais difícil o acesso ao crédito?

– Sim, há critérios mais restritivos, pelo que os bancos tendem a não emprestar cem por cento do valor do imóvel. n

DISTÂNCIA NÃO É TRAVÃO

A principal dificuldade que se coloca aos New Age Delinquents são os encontros para ensaios, trabalhos de produção do novo álbum e concertos. Isto porque os seis elementos do grupo residem, estudam ou trabalham em locais tão díspares como a Maia, Aveiro ou Lisboa. No entanto, essa distância "não tem sido travão" para as ambições do sexteto.

Aos primeiros três fundadores, que arrancaram com o projecto há seis anos, juntou-se, em Setembro de 2007, a banda composta por mais três elementos. "Acreditamos que esta é a melhor forma de dar corpo ao projecto", salientam.

O tema ‘Indiferença’ foi composto de propósito para o Hip Hop Pobreza Stop e "tem um pouco de cada um dos elementos e da sua própria experiência". Os New Age Delinquents defendem que "é por toda a gente virar a cara com indiferença a quem precisa de ajuda que o Mundo está cheio de pobreza".

AMBIÇÃO MAIOR DO QUE O PAPEL

Começou a desenhar em papel, mas a ambição era maior do que a folha e passou para as paredes. "Tinha 14 anos e fiz um desenho com pincel e tintas. As latas eram muito caras", relata Nuno Costa, de Gondomar. Aos 26 anos vive da arte urbana e já foi premiado, mas quer mais. "Se houvesse paredes em que fosse legal pintar evitava-se o que muitas vezes se vê em prédios", diz quem concilia o graffiti com tatuagens e a pintura de carros de tuning.

RETRATO DA MISÉRIA INFANTIL

Uma criança sentada numa lata de spray, com uma colher na mão e um prato vazio é o tema do graffiti de João Frazão, 16 anos, do Parchal, Lagoa. "Comecei a desenhar há cinco anos. Exprimo o que sinto através do graffiti. O hip hop contribui para mudar a sociedade: chama a atenção para problemas e abre os olhos ao povo. Há quem pinte por isso e esse talvez seja o meu caminho", diz o aluno do 9º ano, que procura "deixar uma marca no Mundo".