João Saramago, in Correio da Manhã
Casas de pobres vazias
Os moradores do bairro da Boavista, em Lisboa, contestam a política de habitação praticada pela Gebalis (Gestão de Bairros de Lisboa). No chamado bairro velho "são dezenas as casas que estão vazias, não existindo por parte da Gebalis interesse em as recuperar", disse o presidente da comissão de moradores local, Joaquim Medeiros.
A existência de apartamentos desabitados resulta em acções de ocupação com consequente presença das forças policiais para serem concretizados os despejos. Actuações que geram um clima de instabilidade social, por vezes com situações mais complicadas, como a que aconteceu em Agosto na Zona J, em Chelas, em que a recusa em abandonar cerca de 50 habitações originou confrontos entre a população e agentes da Polícia Municipal.
A actualização das rendas é outro dos aspectos contestados pela comissão de moradores do bairro da Boavista. "No meu prédio há um casal jovem com duas crianças, cujo salário do marido é de cerca de 600 euros. Agora a renda foi elevada para 300 euros", disse Joaquim Medeiros. "Na prática, estas crianças vão deixar de poder comer um iogurte ou uma carcaça por dia porque com 300 euros de renda a vida dos pais é muito difícil", acrescentou o representante dos moradores.
A actualização das rendas dos bairros sociais exclui as 4222 casas, lojas e ateliês do chamado património disperso da Câmara de Lisboa onde em 83% das casas as rendas mensais são inferiores a 50 euros e há inquilinos a viver em palácios e a pagar 2,38 euros/mês.
A inexistência de infra-estruturas no bairro da Boavista é outro dos motivos de queixa dos moradores. Os equipamentos para as crianças brincarem no jardim estão destruídos e há cinco meses que este local não tem iluminação.
Posto dos correios, multibanco e casa mortuária são outras lacunas num bairro isolado do resto da cidade e onde vivem perto de dez mil pessoas.
NÚMEROS
40 mil casas são propriedade da Câmara de Lisboa. Destas, 25 mil são habitação social onde vivem 90 mil pessoas.
67 bairros sociais da capital têm uma dívida de 13,5 milhões de euros por incumprimento das rendas. Ou seja, 25% do total.
8793 pessoas vivem no bairro Padre Cruz, o maior de Lisboa. A Zona J tem 6869. Bairro Pres. Carmona, com 38 casas, é o menor.
COMERCIANTES REVOLTADOS
O preço das rendas dos espaços comerciais no bairro da Boavista, em Lisboa, criou a revolta entre os comerciantes, existindo casos de lojistas que recusam pagar os preços em vigor. A divulgação da lista municipal de lojas no centro de Lisboa que pagam um quarto da tabela em vigor nos bairros sociais gerou a indignação. "Não pago há seis meses", disse Manuel Morais, que explora uma mercearia pela qual deveria pagar 265 euros por mês. A seu lado, Anabela Viana garante que não paga a renda da sapataria, de 378 euros, vai para sete meses. Com 291 euros de renda na peixaria, Eugénia Nascimento diz que não consegue fazer frente a todas as contas. O que vendo de peixe não dá para tudo", lamenta.
"TODOS OS PORTUGUESES RECORREM ÀS MISERICÓRDIAS": Manuel Lemos Pres. União das Misericórdias Portuguesas
Correio da Manhã – Qual a dimensão do trabalho das Misericórdias?
Manuel Lemos – Pode dizer-se com segurança que em algum momento das suas vidas todos os portugueses recorrem às Misericórdias das suas terras. Para os ajudar directamente em termos de acolhimento ou de emprego, de familiares ou de amigos. É assim, há quinhentos anos.
– Entende que há mais pobres e que são cada vez maiores as dificuldades das Misericórdias?
– As estatísticas apontam para que hoje, como há 15 anos, vinte por cento dos portugueses viva abaixo do limiar da pobreza. Considerando que nestes 15 anos foram despendidos milhares de milhões de euros, aí está matéria de profunda reflexão. Para onde foi todo esse dinheiro? Será que praticamos as melhores políticas? Penso que o papel das Misericórdias, embora reconhecido pelo Estado, não está potenciado como devia estar. Claro que as dificuldades aumentam em tempo de crise porque actuamos em contraciclo. Mas é para isso que as Misericórdias existem.
DESPESA
Eugénia Nascimento vive há nove anos no bairro da Boavista. Paga 291 euros de renda na peixaria, 140 de luz, 20 de água e 155 vão para a Segurança Social.


