11.10.08

Europa discute amanhã plano comum para segurar mercados

Isabel Arriaga e Cunha, em Bruxelas, in Jornal Público

Com o sistema financeiro a ameaçar o colapso, as maiores potências parecem finalmente dispostas a acertar um plano de acção comum. Depois da reunião do G7 ontem à noite, agora é a vez dos Quinze do euro


Depois de mais um dia de queda livre nas bolsas, os líderes dos quinze países da zona euro anunciaram ontem que vão reunir-se de emergência amanhã, em Paris, para "definir um plano de acção conjunto da zona euro e do Banco Central Europeu (BCE) face à crise financeira".

O encontro foi convocado ao princípio da noite de ontem por Nicolas Sarkozy, Presidente francês e, actualmente, da União Europeia (UE), três dias antes da cimeira regular dos chefes de Estado ou de governo dos Vinte e Sete, e um dia depois da cimeira franco-alemã que decorre hoje em Colombey-les-Deux-Eglises.

A urgência em realizar esta reunião e encontrar um plano de acção está relacionada com o facto de, ontem, mais uma vez, as principais bolsas europeias terem fechado com perdas próximas de sete por cento, concluindo uma das semanas mais negras da história dos mercados mundiais.

Tudo indica que os Quinze do euro, em conjunto com os presidentes da Comissão Europeia e do BCE, Durão Barroso e Jean-Claue Trichet, deverão debruçar-se sobre a possibilidade de lançamento de uma acção conjunta nos moldes do plano de socorro ao sistema financeiro adoptado na quarta-feira pelo Governo britânico: Londres decidiu proceder à nacionalização parcial de oito bancos e garantir os empréstimos no mercado interbancário.

Alemanha recua?

De acordo com um responsável europeu, a presidência está a trabalhar numa proposta de solução que poderá ser inspirada nestas ideias. A questão que se coloca é saber se a Alemanha poderá apoiar uma acção deste tipo, sabendo-se que a chanceler Angela Merkel tem defendido firmemente que as soluções para a crise terão de ser nacionais e decididas caso a caso.

De acordo com o jornal alemão Die Welt, Berlim, que se opunha mesmo à definição de um plano comum para a totalidade do sector bancário nacional, estará agora a trabalhar numa possibilidade inspirada na iniciativa britânica. Peer Steinbrueck, ministro alemão das Finanças, deixou implícita esta mudança ao afirmar ontem em Washington que "é preciso acabar com as soluções caso a caso" e "estabilizar o sector financeiro na sua globalidade".

Alistair Darling, o seu homólogo britânico, disse igualmente em Washington que a crise poderá melhorar "quando as pessoas perceberem que o conjunto dos créditos interbancários, que atingem montantes astronómicos, é apoiado pelos bancos centrais e governos do mundo inteiro". Gordon Brown, primeiro-ministro britânico, lançou por seu lado, num artigo publicado no Times de Londres, um apelo para o resto do mundo seguir os passos do seu plano "revolucionário", considerando que a crise impõe "o abandono de dogmas ultrapassados e a adopção de novas soluções".

A ideia de uma cimeira dos países da eurolândia começou por ser ontem ventilada pelo primeiro-ministro espanhol, Rodríguez Zapatero, depois de um almoço com Sarkozy, em Paris. "Pedi ao Presidente Sarkozy para convocar uma reunião de urgência dos chefes de Estado ou de governo do Eurogrupo para definir em conjunto uma acção coordenada e forte de todos os países da zona euro", explicou à imprensa. Sarkozy classificou a proposta de "interessante, pertinente e útil", mas considerou necessário fazer "alguns contactos" antes de tomar a decisão que anunciou horas depois.
A Espanha tinha sido um dos países da UE mais críticos da minicimeira realizada sábado passado, em Paris, e limitada aos quatro maiores Estados da UE (França, Alemanha, Itália e Reino Unido), que não produziu muito mais do que a promessa de não deixar falir nenhum banco solvente.

Também ontem, em Washington, no final de um encontro entre os líderes das sete maiores economias mundiais (G7) foi emitido um comunicado onde, mais uma vez, se assegura que tudo será feito para garantir a estabilidade dos mercados. No documento sublinham-se os compromissos assumidos pelos vários signatários: serão usados todos os instrumentos disponíveis para suportar as instituições financeiras em dificuldades; serão tomados todos os passos para descongelar o mercado de crédito; assegura-se que todas as instituições financeiras poderão aceder ao capital de que necessitam de forma a restabelecer a confiança; e garante-se que os fundos de garantia de depósitos garantem as poupanças dos cidadãos.

O comunicado termina salientando que todas as acções serão tomadas de forma a proteger os contribuintes e de forma a evitar danos colaterais noutros países. As constantes movimentações dos vários líderes mundiais resultam do facto de esta semana ter sido marcada pelo pânico generalizado nos mercados accionistas. "Pode ser que o fim-de-semana traga novidades que ajudem a acalmar a abertura das bolsas na segunda-feira", admitia ao PÚBLICO um operador, para quem o mercado "está numa situação muito frágil".

Semana fecha em pânico

Numa voracidade em que já não se olha a sectores nem a indicadores fundamentais das empresas, as bolsas europeias voltaram ontem a encerrar com perdas entre os cinco e os nove por cento. Por pouco tempo, alguns índices chegaram apresentar uma queda acima dos 10 por cento, acompanhando um agravamento das quedas do norte-americano Dow Jones, que num curto espaço de tempo passou de uma queda de cinco para quase nove por cento.

À "montanha russa" não escapou a bolsa de Lisboa (PSI 20), que chegou ontem a perder mais de sete por cento, encerrando a cair 5,94 por cento. O PSI 20 acumulou na semana uma perda superior a 14 por cento.

Na Europa, a maior queda do dia foi em Madrid, com o IBEX 35 a perder 9,14 por cento, a pior queda desde que existe o índice. Esta perda agravou o saldo negativo da semana para mais de 20 por cento. Seguiu-se Londres, a perder 8,85 por cento, Paris, a perder 7,73 por cento, e Frankfurt, que chegou a perder mais de 10 por cento e terminou a recuar 7,0 por cento.

Mas ainda antes da abertura europeia houve derrocada na Ásia, onde
o Nikkei (Japão) perdeu 9,62 por cento e o Hang Seng (Hong Kong) deslizou 7,19 por cento. Nos Estados Unidos, escapou-se o índice Nasdaq ao subir 0,24 por cento, mas o Dow Jones voltou a perder mais de um por cento. com Rosa Soares e Sérgio Aníbal
O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, reúne-se amanhã com os quinze países da zona euro e com o líder do Banco Central Europeu num encontro de emergência que visa estabilizar os mercados.