16.10.08

UE unida face à crise financeira, dividida sobre luta contra alterações climáticas

Isabel Arriaga e Cunha, Bruxelas, in Jornal Público

Países de Leste e Itália dizem não estar em condições de pagar custos nos cortes
das emissões de dióxido de carbono, sobretudo devido à queda dos mercados bolsistas


A recente unidade dos países europeus na resposta à crise financeira foi ontem quebrada com a forte contestação de alguns governos à estratégia comum de combate às alterações climáticas. A Itália e a Polónia chegaram mesmo a ameaçar avançar com um veto.

"Anunciei a minha intenção de pôr o meu veto" afirmou o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, pouco depois do início da cimeira trimestral de líderes da União Europeia (UE), ontem em Bruxelas. "A Polónia está connosco", precisou.

Segundo Berlusconi, as empresas italianas "não estão absolutamente em condições de suportar os custos da regulamentação proposta", sobretudo devido à crise económica e financeira.

Os governos da UE definiram no ano passado uma série de metas, mais conhecidas por "três vintes", a atingir em 2020 em termos de protecção do clima: 20 por cento de redução das emissões de dióxido de carbono (CO2), 20 por cento de energias renováveis e 20 por cento de poupança energética face aos valores actuais.

"Não é o momento de fazermos de Dom Quixote e avançar sozinhos, quando os principais produtores de CO2, como os Estados Unidos ou a China, são contra uma adesão ao nosso projecto", defendeu Berlusconi.

Oposição de Leste

"A Polónia está pronta para vetar eventuais tentativas de nos forçar a um acordo sobre o pacote climático", afirmou por seu lado o ministro dos Negócios Estrangeiros de Varsóvia, Radoslaw Sikorski.

A contestação ao projecto subiu igualmente de tom entre vários outros países de Leste, que o consideram fortemente penalizador das suas economias em desenvolvimento, e que se baseiam igualmente na crise económica para exigir algumas derrogações.

Os chefes dos governos da Polónia, Hungria, Estónia, Letónia, Lituânia, República Checa, Eslováquia, Bulgária e Roménia reuniram-se, aliás, imediatamente antes do início da cimeira, para deixar bem clara a firmeza da sua posição para a discussão prevista para ontem à noite entre os líderes europeus.

Ainda assim, a presidência francesa da UE espera conseguir inscrever nas conclusões de hoje da cimeira o compromisso dos Vinte e Sete de concluírem um acordo sobre a totalidade do pacote até Dezembro.

Se nesta discussão, que decorria à hora do fecho desta edição, as clivagens são evidentes, já sobre a crise financeira, o tema central da cimeira, o consenso é real.
O acordo concluído pelos Quinze países do euro no domingo, em Paris, prevendo um possível investimento de mais de dois milhões de milhões de euros para a estabilização do sistema financeiro, foi aceite sem problemas de maior pela totalidade dos Vinte e Sete, apesar de algumas hesitações da República Checa.

O mesmo consenso rodeia a necessidade de a Europa liderar a etapa seguinte do plano de resposta à crise: uma "grande reforma" das regras do sistema financeiro internacional no quadro de uma conferência envolvendo os países ricos do G8 e as economias emergentes da China, Índia e Brasil.

"Nenhuma instituição financeira deverá escapar à regulação e à vigilância", defendeu Nicolas Sarkozy, Presidente francês, defendendo igualmente a necessidade de "disciplinar as agências de notação", "vigiar os hedge funds (fundos altamente especulativos)" e eliminar "os off-shores" que "comprometem os esforços [da UE] de coordenação", adiantou.

"Penso que há uma possibilidade de acordo nos próximos dias para organizar uma reunião internacional para desenvolver uma acção com vista a mudanças muito importantes e radicais", afirmou, na mesma linha, Gordon Brown, primeiro-ministro britânico. Sarkozy, acompanhado de Durão Barroso, conta aliás discutir esta perspectiva com o presidente americano, George Bush, em Camp David, no sábado.

O plano europeu deverá ser ainda completado com a criação de uma "célula de crise" composta pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu, presidência rotativa da UE e presidente do Eurogrupo, que os Estados poderão contactar a qualquer hora do dia ou na noite em caso de crise. A célula ficará encarregue da "boa coordenação dos actores e proporá, se necessário, uma acção comum", refere o projecto de conclusões da cimeira.