12.10.08

Campanhas para jovens devem ser pensadas por jovens, defende alta-comissária da Saúde

Clara Viana, in Jornal Público

A informação disponível é "chata". Jovens europeus disseram à OMS como mudar o embrulho. Maria do Céu Machado ouviu


Porque hão-de ser sempre os adultos a pensar pelos jovens? Inspirada em práticas que têm vindo a ser seguidas em alguns países europeus e nos EUA, a alta-comissária da Saúde, Maria do Céu Machado, quer fazer de outro modo e entregar aos mais novos a responsabilidade de encontrarem mensagens eficazes para os seus pares.

Para tal, propõe que o Ministério da Saúde promova a realização de um fórum de estudantes do ensino secundário e dos primeiros anos da universidade e recolha as suas ideias. Por exemplo, sobre como convencer um jovem a nunca pegar num cigarro.
Em Portugal, é entre as raparigas dos 15 aos 24 anos que o consumo de tabaco mais tem aumentado: em seis anos, subiu 40 por cento. "Não tem havido campanhas [antitabágicas] especificamente dirigidas aos jovens", constata a alta-comissária, em declarações ao PÚBLICO.

Montar campanhas diferenciadas consoante os públicos a atingir pode ser fundamental mas não basta, como mostraram várias das que foram implementadas sobre a sida. Inquéritos recentes dão conta que são poucos os jovens que se lembram de alguma delas e ainda menos os que dizem ter aprendido alguma coisa com elas.

Como sempre em comunicação, trata-se de como fazer passar a mensagem. No ano passado, no âmbito de uma reunião interministerial da Organização Mundial de Saúde (OMS), 51 jovens, com idades entre os 16 e os 22 anos, oriundos de 28 países europeus (mas nenhum de Portugal), foram a Viena para mostrarem aos adultos ali reunidos como eles continuam a falhar na produção de mensagens "amigas da juventude" (youth friendly).

Primeiro diagnóstico: "A informação disponível é demasiado longa e chata." É preciso "informar de um modo compreensível e atraente", "utilizar sinais e slogans em vez de longos e dispendiosos anúncios", aconselharam. Segundo diagnóstico: "Os pais não estão suficientemente informados." Vários jovens portugueses inquiridos sobre as campanhas de prevenção do HIV contrapuseram com a ignorância dos adultos: mais do que eles, eram os seus pais quem deviam ser informados sobre os perigos e os meios de os prevenir.

A ignorância dos pais

Mas os jovens que foram a Viena - a maioria são membros nos seus países de organizações não governamentais - não se limitaram a apontar falhas. Apresentaram propostas alternativas. Por exemplo, transformaram o palavroso Plano de Acção Europeu Ambiente e Saúde para as Crianças, adoptado em 2004 pela OMS, num documento imediato. Quase logo no início, a nova versão tem esta bicada: "É absurdo quando os adultos debatem problemas dos jovens sem terem jovens entre eles."

Uma informação mais acessível e eficaz é também uma forma de garantir o que está estipulado na Convenção sobre os Direitos da Criança da ONU: as crianças e os jovens têm o direito a serem consultados nos processos e decisões que afectam a sua vida, presente e futura.

A saúde e o ambiente fazem parte deste pacote. Desde 2004, a OMS tem garantido a presença de delegados jovens no seu Comité Europeu para o Ambiente e Saúde (EEHC, na sigla em inglês), disse ao PÚBLICO Lúcia Liccari, assessora da organização para esta área. "A participação dos jovens alarga a sua compreensão do mundo, reforça as suas capacidades de decisão e contribui para os tornar cidadãos activos", frisa.

O jovem Teodor, um moldavo de 17 anos, já deu o seu primeiro contributo com um pequeno vídeo, de 60 segundos, que apresentou no ano passado em Viena. Chama-se Unlucky Strike e, com este nome, só podia ser sobre cigarros, embora a coisa se passe numa batalha de rua.

Teodor elaborou o seu filme no âmbito de um workshop promovido pelo projecto europeu OneminutesJr, promovido para proporcionar aos jovens mais meios e oportunidades de se expressarem (ver www.publico.pt).

Céu Machado era um dos adultos que estava na reunião de Viena. A proposta que agora dirigiu ao Ministério da Saúde começou a germinar ali: "O que se pretende é a opinião dos jovens."