João Saramago / A.A. / J.C.M. / A.M.R., in Correio da Manhã
344 mil com ajuda
O número de portugueses que vive no limiar da pobreza baixou cerca de 200 mil em dois anos, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística. O Rendimento Social de Inserção (RSI) é o principal meio do Estado para combater a pobreza. Uma ajuda que chega a 344 mil.
O subsídio para as famílias reorganizarem a vida não é, porém, bem visto pela sociedade. Paula (nome fictício), antiga lojista de Santarém que durante dez meses sobreviveu com o marido e quatro filhos graças ao RSI, disse ao CM não querer divulgar a sua identidade por temer ser insultada.
"Prefiro não ser fotografada. É mau dizermos que vivemos do rendimento. Dizem que somos malandros e que não queremos trabalhar", contou, esclarecendo que hoje trabalha num centro para jovens e idosos e o marido é carpinteiro.
Com 43 anos, Paula tinha com o marido uma loja de mobiliário. Mas em 2000, com o início da crise, os clientes começaram a não pagar. "Chegaram a dever-nos 40 mil euros. Tivemos de fechar a loja em Novembro e despedir a empregada", disse. "Não tinha dinheiro para pôr comida na mesa. Valeram-me pessoas amigas. Ao tomar conhecimento do RSI candidatei-me. De início recebia 547 euros. Em Setembro, último mês em que recebi, foram 307 euros. Como tínhamos casa própria conseguimos equilibrar as contas com o subsídio", recorda.
Marino Silva, 38 anos, vive numa casa social no Bairro da Boavista, em Lisboa. "Somos quatro casais, com quatro crianças, a viver numa casa com três quartos", conta o patriarca de uma família cigana que recebe 340 euros do RSI por mês. "Recebemos porque sou feirante e ganho pouco", disse.
Imigrantes romenos, Daniela Tatu, marido e duas filhas conseguiram em Abril alugar uma casa em Famões, concelho de Odivelas, graças ao subsídio de 254 euros mensais. "Vivíamos numa cave cheia de humidade o que era muito mau para a minha filha Alexandra, que sofreu um brutal acidente", contou.
MOBILIZAR 100 MIL PARA A RUA
O Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza, na sexta-feira, será assinalado com o evento ‘Levanta-te e Actua’, que se prolonga até domingo, com actividades de Norte a Sul do País. O objectivo é mobilizar cem mil portugueses e a informação sobre os locais da iniciativa pode ser obtida em www.levanta-te.org. No ano passado a iniciativa congregou mais de 43 milhões de pessoas em todo o Mundo, quebrando o recorde Mundial do Guinness. Este ano a iniciativa quer obter novo recorde com actividades artísticas e desportivas.
NÚMEROS
344 mil são beneficiários do Rendimento Social de Inserção, o que corresponde a um aumento de 32 mil desde Dezembro. Destes há 11 mil estrangeiros.
30 mil agregados familiares beneficiários do RSI serão fiscalizados este ano. Em 2004, foram apenas observadas 2400 famílias.
28 meses é o tempo médio de usufruto do RSI. Sete mil beneficiários participam em acções de formação para entrarem no mercado de trabalho.
"RENDIMENTO SOCIAL VISA INSERÇÃO NA SOCIEDADE" (Edmundo Martinho, Presidente Inst. Segurança Social)
Correio da Manhã – Considera que o Rendimento Social de Inserção (RSI) foi o principal instrumento para a redução de 200 mil pobres em dois anos?
Edmundo Martinho – O Rendimento Social de Inserção, assim com o Complemento Solidário para Idosos, são as medidas com maior impacto nas situações de pobreza, sendo importante referir que o RSI actua sobretudo ao nível da severidade, ou seja, na intensidade com que a pobreza é vivida. De igual modo, o reforço das prestações familiares tem vindo a ser determinante da evolução fortemente positiva no que respeita aos indicadores sociais e em particular quanto ao risco de pobreza. A evolução em Portugal não tem paralelo em nenhum outro país da União Europeia.
– Temos hoje o maior número de sempre de beneficiários do RSI?
– Não. São cerca de 340 mil os beneficiários. Para se ter uma ideia, em 2000 eram 400 mil.
– O RSI é uma prestação social para quem quer trabalhar?
– É uma prestação que se distingue e caracteriza pelo facto de ser obrigatoriamente celebrado, com o respectivo titular e respectivo agregado familiar, um programa de inserção que tem como objectivo a autonomização dos cidadãos. Isto é, fazer com que desapareça a necessidade de recurso ao RSI, como a prestação correspondente ao último patamar de protecção. n
SENSIBILIZAÇÃO PARA O TEMA
Leu uma notícia sobre o concurso num café e aproveitou a oportunidade. Nelson Ferreira (Nigga MC), de 22 anos, natural de Portimão e residente em Silves, tem grande paixão pela música e sensibilidade por questões sociais. "O que me levou a participar foi o tema. Passaram-me pela cabeça situações que vivi no meu bairro e decidi avançar."
Em 2001, com Dezman, Reflect e Raffs, fundou os Evoluson. "Somos amigos e na altura frequentávamos a mesma escola. Tudo começou numa brincadeira, mas agora queremos transformar-nos num caso sério..." Já actuaram no Algarve e um pouco por todo o País, incluindo na Casa da Música do Porto. "Temos recolhido opiniões muito favoráveis e pretendemos lançar em breve o primeiro álbum, ‘Bairrismundo’, no âmbito do Projecto Escolhas. Mas falta dinheiro para a edição."
Nelson, cujos pais são de Angola, não esperava chegar à final com ‘Ignorância’, mas vai dar o melhor. "Vou fazer o que gosto, e isso deixa-me tranquilo. Levo uma mensagem sobre um problema que afecta muita gente e que existe no meu bairro. Despertar consciências é o mais importante mas se vierem a abrir-se portas, melhor."
VIVÊNCIAS SÃO INSPIRAÇÃO
O hip hop até pode ser um estilo de intervenção, mas para os Caixa Toráxica não é esse o caso. Trata--se de soltar e deixar fluir os seus mundos interiores. "Queremos falar do que percebemos e não de política. É assim que podemos chegar ao nosso público e a quem entenda o que estamos a falar e a sentir", garante a dupla de Vila Nova de Gaia, Vítor Santos e Nuno Monteiro, de 20 e 21 anos, respectivamente.
O dia-a-dia, o amor, as vivências são baú de onde lhes saí a inspiração desde há dois anos, quando começaram a experimentar os primeiros beats.
Com o tema ‘(In)Diferenças’, finalista do Hip Hop Pobreza Stop, fazem uma incursão por terrenos que pouco conhecem. Mas encaram a participação como uma forma de se darem a conhecer e poderem um dia chegar ao plano dos ídolos incontornáveis no panorama nacional: Dealema ou Sam the Kid. A vontade de ser alguém na música está estampada numa frase que sai em tom de citação. "Gosto demasiado da música para não fazer dela a minha vida", diz Vítor.
A aposta dos Caixa Toráxica é um equilíbrio entre a batida e as letras. "Todos os dias nos juntamos para criarmos o nosso som", afirmam.
ARTE PARA DAR QUE PENSAR
Chamam-se Edgar Neves e Cláudio Martins, mas nas ruas da Amadora – através dos inúmeros trabalhos que têm espalhados pela cidade –, são conhecidos por ‘Esak’ e ‘Dali’. Começaram "como toda a gente começa neste ramo, com uma lata na mão", a desenhar a torto e a direito, onde quer que houvesse uma parede branca. Mas hoje, aos 25 anos, deixaram-se de aventuras e pintam apenas em locais autorizados. E garantem que os seus graffitis têm procura. "Quando as pessoas vêem o nosso trabalho, fazem-nos encomendas", diz Edgar.
Já pintaram empresas (fachada e interiores)ecasasparticulares (principalmente quartos), mas do que gostam é de fazer desenhos "com mensagem". "Todos os nossos trabalhos têm por detrás uma ideia", explica Cláudio Martins. "Queremos pôr as pessoas a pensar."
Este concurso – de que ouviram falar aos amigos – veio, portanto, bater à porta certa. O que não esperavam é ter a votação que tiveram.
"Soubemos do concurso muito em cima da hora e podíamos ter preparado um trabalho bem melhor", diz Cláudio Martins, ao que Edgar Neves acrescenta que entregaram o projecto "à meia-noite do último dia, mesmo a terminar o prazo".
Por isso, é com dupla satisfação que vêem reconhecido o seu projecto: dá-lhes alento para continuar. Embora ambos tenham emprego, no futuro vêem-se sócios de um gabinete de design gráfico, o seu maior sonho.


