15.10.08

Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza: Faltam 2 dias

João Saramago, in Correio da Manhã

Ensino trava exclusão


No Alto da Cova da Moura, concelho da Amadora, há uma associação que ensina aos jovens que estudar ajuda a combater a pobreza. O Moinho da Juventude nasceu há 21 anos da luta de mulheres pelo acesso a água canalizada. Num dos bairros problemáticos da Grande Lisboa a associação tem hoje por principal tarefa complementar a educação de crianças e jovens.

"Temos jovens do bairro, juristas, economistas, atletas e professores", disse ao CM o psicólogo Carlos Simões. Ser licenciado não significa, contudo, um futuro fácil. "É uma luta muito intensa que estes jovens têm de realizar. Porque embora seja dito que há igualdade de oportunidades, eles têm consciência de que ir a uma entrevista de trabalho e ser negro e viver na Cova da Moura pode significar não ser aceite", acrescentou o professor da Universidade Lusófona que há 12 anos presta voluntariado no bairro com cerca de sete mil habitantes.

Entre as 05h30 e as 21h30 o Moinho da Juventude acolhe cerca de 400 crianças. Com o objectivo de dar resposta ao futuro dos mais novos, Carlos Simões explica que a educação permite "ter uma consciência mais forte da sua própria pessoa para uma participação social mais activa e mais reivindicativa".

Segundo o prémio Nobel da Economia James Heckman, estudar nos primeiros anos de vida reduz a entrada dos jovens no crime, a gravidez na adolescência, o abandono escolar e garante melhor acesso ao mercado de trabalho. O economista baseou as afirmações no estudo de Perry, onde sociólogos norte-americanos do estado de Michigan acompanharam durante oito anos alunos de origem africana cujos pais tinham baixos salários. Décadas mais tarde, quando estes alunos já na idade adulta foram comparados com outras crianças com pouca educação, verificou-se que 29% dos jovens que estudaram ganhavam mais de dois mil dólares e 36% tinha casa própria. Entre os que não estudaram, apenas 7% tinha um ordenado desse valor e apenas 13% tinha casa própria.

CRIANÇAS DA RUA SÃO DE TODAS AS CLASSES

Manuela Eanes, presidente do Instituto deApoio à Criança (IAC), entende que os meninos de rua já não são só crianças de bairros degradados, mas constituem um fenómeno transversal em todas as classes sociais. São crianças excluídas não só pela pobreza económica mas também pela pobreza de valores do meio em que vivem. Segundo a presidente do IAC, as crianças de rua dedicam-se na grande maioria à prostituição. "Vivem da rua e são vítimas das piores formas de trabalho de rua", disse no Fórum Europeu sobre a Criança de Rua.

DISCURSO DIRECTO

"VIGILÂNCIA POR VÍDEO NÃO RESOLVE INSEGURANÇA", Lieve Mersschaert, Presidente Moinhos da Juventude

Correio da Manhã – A insegurança prejudica o trabalho do Moinho da Juventude?

Lieve Mersschaert – Prejudica como em qualquer outro local, porque há insegurança por toda a parte. O que nós aqui procuramos é criar laços com a comunidade. Tentamos lutar por uma sociedade mais segura não com videovigilância, porque as pessoas não são objectos, mas reforçar os laços entre pessoas, emoções, culturas, objectos e natureza.

– Respondem às necessidades de todas as crianças do bairro?

– Não. Pelo que damos prioridade aos casos de pessoas mais carenciadas. Temos por objectivo estender os nossos horários para lá das 05h30 às 21h30 porque há pais que precisam de trabalhar muitas horas para conseguir ganhar o suficiente para o sustento da casa e os filhos não podem ficar sozinhos.

NÚMEROS

4946 cursos profissionalizantes para os ensinos Básico e Secundário nas escolas públicas foram realizados no último ano.

102 mil alunos do Ensino Básico chumbaram ou abandonaram a escola no ano lectivo de 2006/2007. Foram 10% do total.

71 269 alunos do Ensino Secundário não conseguiram terminar o ano em 2007. Representaram 24,6% do total de estudantes.

DESPERDÍCIO INSPIRADOR

Nuno Palhas é já quase um veterano na arte do graffiti. Com 29 anos, Nuno conta já 11 a pintar, mas o seu objectivo tem sido quase sempre o mesmo: conseguir chamar a atenção ao maior número de pessoas possível.

"Ao pintar numa parede é sempre possível que alguém ao passar olhe para o que nós fizemos", disse.

Para Nuno Palhas, o graffiti pode também desempenhar um papel social. "Com esta arte podemos embelezar alguns dos edifícios que estão vandalizados", afirmou o artista, que diz conjugar esta paixão com o break-dance e o hip-hop.

A paixão pelo graffiti valeu experiências internacionais a Nuno Palha, que afirma já ter pintado em França e na Alemanha, países onde, confessou, se apercebeu "de que as pessoas têm uma mentalidade diferente em relação a esta arte que é o graffiti".

Quanto à pobreza, tema que dá mote ao concurso, Nuno Palha diz que quis reflectir sobre a sociedade do desperdício.

"O que pretendo demonstrar é que as pessoas mandam muitas coisas para o lixo e que, muitas vezes, aquilo que é um desperdício pode ser a sorte de outros que na-da têm", relatou. n J.C.M.

RAP: FINALISTAS FALAM DAS SUAS PREOCUPAÇÕES

A IMPORTÂNCIA DA MENSAGEM

Tem 27 anos, está no segundo ano da Faculdade de Relações Internacionais e trabalha como vendedor. Nas horas livres treina uma equipa de futebol e escreve. Mário Leão, ou seja, Dyze, tem dezenas de músicas escritas. Entre elas escolheu ‘Máquina do Tempo’ para apresentar neste concurso: reflexão profunda sobre os tempos que correm. Aliás, em todas as canções diz que privilegia a mensagem pois ainda que a música não possa mudar o Mundo "é preciso dar voz aos problemas reais."

CANTAR A PROBREZA ESPIRITUAL


A escola foi palco de um encontro que deu música. Rui e Bernardo, de 17 e 18 anos, respectivamente, passaram a Enigma/Check e o hip-hop a preencher a maior parte dos seus tempos livres. As namoradas são a maior fonte de inspiração e musas que apelidam de "melhores beats".

A pobreza não é um tema normal nas suas rimas, mas uma experiência que por ser diferente foi aliciante. "Tentámos falar mais da pobreza numa vertente espiritual e não tão ligada à material", confessam.