Patrícia Carvalho, in Jornal Público
Presidente do Instituto da Droga e Toxicodependência, João Goulão, afirma que parceria com a Câmara do Porto é bem-vinda, mas avisa que "moldes terão que ser negociados"
A ministra da Saúde disse, ontem, em Vila do Conde, estar disponível para avaliar se é ou não "oportuno" reabilitar o programa camarário de combate à toxicodependência Porto Feliz. Ana Jorge reagia assim ao apelo lançado pela Câmara do Porto ao Instituto da Droga e Toxicodependência (IDT) para que reactivasse o programa extinto em 2006.
Apesar de não ter chegado às mãos de Ana Jorge qualquer pedido de Rui Rio para que seja relançado o Porto Feliz, a ministra não rejeita a ideia. Questionada pelos jornalistas, à margem de uma visita a Vila do Conde, Ana Jorge afirmou: "Não recebi a carta do senhor presidente, mas, obviamente, na altura em que a receber, falarei com o conselho directivo da ARS [Administração Regional de Saúde] do Norte, que é o responsável pela organização dos serviços de saúde da região, e veremos se é ou não oportuno", disse a ministra, acrescentando: "Estou certa que é um ponto para ser discutido em franco diálogo".
Na ARS-Norte as palavras da ministra foram recebidas com normalidade. "Temos uma política de abertura, salutar, de ouvir propostas e perceber se fazem sentido", disse ao PÚBLICO Fernando Araújo, do conselho directivo daquela entidade. Confirmando não ter recebido qualquer proposta do executivo liderado por Rui Rio, o responsável prefere, para já, aguardar. "Mais do que fazer prognósticos ou avaliações sobre eventuais propostas, vale a pena ver o que a câmara quer e analisar se faz ou não sentido", disse.
Apesar de ter divulgado o comunicado na passada sexta-feira, a autarquia parece não ter feito qualquer contacto oficial com as entidades responsáveis, nomeadamente, com o IDT, a quem foi feito o apelo. João Goulão, que também não fecha a porta ao diálogo com a Câmara do Porto, lamenta: "Como é habitual, os contactos [da autarquia com o IDT] são via imprensa ou com pedidos de demissão. Os contactos pela via franca, como deveriam ser, não acontecem".
O presidente do IDT adianta, contudo, que "uma colaboração com a câmara [do Porto] seria muito bem-vinda". E explica: "Já dissemos várias vezes que estamos disponíveis para trabalhar com a Câmara do Porto, gostaríamos muito que fosse nossa parceira no desenvolvimento de respostas ao problema da toxicodependência na cidade e na região."
Ainda assim, a reabertura do Porto Feliz, nos moldes em que já existiu, não parece estar no horizonte de João Goulão. "Os moldes em que se fará essa colaboração terão que ser negociados. Temos os nossos próprios programas em desenvolvimento e não fazia sentido haver uma dissociação completa entre um programa da autarquia e os nossos", diz. O presidente do IDT deixa ainda um aviso: "Somos um país de recursos limitados e a grande responsabilidade que temos é construir respostas complementares e não que conflituem umas com as outras".
O PÚBLICO tentou ouvir a Câmara do Porto sobre esta matéria, mas, até à hora de fecho desta edição, a autarquia não se pronunciou.
Criticado por uns, elogiado por outros, o Porto Feliz, criado em 2002, no primeiro mandato de Rui Rio, foi extinto em 2006, depois de o IDT ter denunciado o protocolo que mantinha com a Câmara do Porto. No comunicado emitido na semana passada, a autarquia garante que, por culpa disso, "as ruas do Porto começaram novamente a encher-se de arrumadores." Após o extinção do programa, Rio pediu a demissão do presidente do IDT. A autarquia afirma que o Porto Feliz tirou da rua "mais de 500 arrumadores toxicodependentes".


