10.10.08

Preconceito ainda afecta cuidados à saúde mental

Eduarda Ferreira, in Jornal de Notícias

Direitos de pacientes e famílias não estão garantidos na nossa sociedade, dizem psiquiatras


É mais frequente do que emerge, porque se esconde e é escondida. Há o estigma. Mas, afinal, a doença mental afecta por alguma forma 30% da população portuguesa. Em 12% dos cidadãos ela assume uma natureza grave.

Fosse o caso de pernas partidas não tratadas, mesmo em número não comparável ao dos casos de doença mental, e haveria protestos pelo país inteiro. Mas as pessoas que sofrem de perturbações têm a sua capacidade de reclamar afectada. Esta circunstância é apontada pela psicóloga clínica Filipa Palha como uma razão para a doença mental não merecer, no nosso país, enquadramento e apoio pelo menos comparáveis ao de outras patologias. A presidente da associação Encontrar+Se considera que "não estão garantidos os direitos" dos doentes e suas famílias, que o estigma a que eles são sujeitos é regra em Portugal e que quase tudo está por fazer no campo da intervenção precoce, tratamento integrado e reabilitação psicosocial.

Na perspectiva da mesma psicóloga clínica, os direitos dos doentes e famílias "não estão garantidos", apesar de "há muitos anos estarem identificadas as necessidades" no campo da saúde mental e de muitos documentos internacionais terem sido subscritos. Faltam, segundo a sua observação prática, técnicos com formação e estruturas capazes de fazer o tratamento precoce e acompanhar o doente na comunidade.

Filipa Palha critica o Plano Nacional de Saúde Mental por "se centrar muito no fecho dos hospitais psiquátricos", comentando que "ainda bem que eles existem, pois não foram constituídas alternativas". Outro problema, assinala, é o estigma sobre o doente mental. É contra esse dedo apontado, mais ou menos visível nos comportamentos da sociedade, que a associação que dirige também trabalha. "A doença mental", sustenta ainda Filipa Palha, "não se trata apenas com remédios, porque ela afecta toda a forma de relacionamento com o mundo e exige diversidade de respostas e intervenções na família, emprego, comunidade e tempos livres" .

Para Marques Teixeira, professor na Faculdade de Psicologia da Universidade do Porto, coordenou o estudo a que acima fazemos referência e refere com preocupação as taxas de abandono da medicação. Em parte, afirma, esse abandono é influenciado pela informação dos media e internet sobre a perigosidade de fármacos, bem como pela imagem que a sociedade constrói da doença.

De acordo ainda com o psiquiatra Marques Teixeira, dado relevante é o de 72% dos seus congéneres inquiridos afirmarem que menos de 10% dos doentes têm grupos de apoio social além da família. Essa é uma preocupação nesta fase em que se reformula a assistência à saúde mental em Portugal, afirma. "Não se muda de um modelo assistencial estrito para uma rede de apoio social" sem estudar bem a transição. A assistência médica tem de estar sempre garantida, defende, lembrando que nos próximos anos seria necessário juntar mais 200 profissionais aos cerca de 900 psiquiatras agora inscritos na Ordem dos Médicos.