10.10.08

400 estrangeiros nas vindimas em Santa Marta de Penaguião

Eduardo Pinto, in Jornal de Notícias

São Miguel de Lobrigos. São cinco e meia da tarde. Daniel Stoica, 21 anos, romeno, assoma timidamente à porta da casa que arrendou naquela freguesia de Santa Marta de Penaguião por 210 euros mensais.

Banho tomado, roupa lavada, após mais um dia de vindima. "Ganhei mais 50 euros ganhos a carregar cestos às costas", segundo diz. A mulher esconde-se. Mas o marido revela: "ela ganha 27,5 euros a cortar uvas".

Este é um dos muitos casais romenos, alguns de outras nacionalidades, cerca de 400 pessoas ao todo, que participam nas vindimas deste concelho do distrito de Vila Real. Destes, muitos estão em situação ilegal, como Ioan, que, a custo, explica: "Acabo a vindima e regresso à Roménia com a mulher". Veio ganhar dinheiro, mas não quer ficar cá. Daniel também trouxe o mesmo objectivo, mas já cá anda há cerca de quatro anos. "Estou legal, com visto de permanência, Segurança Social e tudo", explica.

Daniel quer comparecer à reunião que a Autoridade para as Condições de Trabalho (ACT) vai realizar hoje à noite, 21 horas, em Santa Marta de Penaguião, com a colaboração da Câmara Municipal e outras entidades. É uma acção dirigida a imigrantes e empregadores, que pretende sensibilizar, essencialmente, para os direitos legais dos trabalhadores.

Victória não chegou a dizer se vai à reunião. A única resposta foi bater forte com a porta da casa que partilha, em São Miguel de Lobrigos, com o marido e uma filha. "Está em situação ilegal e tem medo da fiscalização", explicam-nos. Não é a única. Às portas da vila de Santa Marta, atrás do balcão do restaurante Santo António, Armando Coutinho explica que desde que a ACT começou as inspecções nas vindimas - e já lá vão sete com 100 trabalhadores identificados - perdeu clientela, manhã cedo. "Pelo menos uns quarenta romenos, todos do mesmo empreiteiro, que aqui vinham tomar café e comprar tabaco deixaram de vir. Vão directos para a vinha", concretiza.

O dono do restaurante acha que os imigrantes são bem-vindos "porque cá já não há quem queira fazer o serviço todo na vinha" e que se houve alguns que foram explorados e escravizados "foi quando começaram a chegar". "Agora já todos ganham como nós", subscreve José Rodrigues, de Moura Morta, acabado de chegar da vindima a Santa Marta e à espera de boleia para regressar a casa. "Eu sou contra a escravidão. Fui emigrante em França e não gostava que me tivessem lixado", atira, enquanto Maria das Dores propõe que "só é escravizado quem quer", pois "se não está bem vai embora".

O presidente da Câmara Municipal de Santa Marta de Penaguião, Francisco Ribeiro, foi quem pediu a sessão de esclarecimento de hoje à noite, preocupado com algumas situações com as quais não concorda, como é o caso do trabalho ilegal e das "pessoas sem escrúpulos que metem muita gente na mesma casa tirando lucros fabulosos". "Há cerca de 20 pessoas a viver numa garagem sem as mínimas condições", confidenciou um penaguiota que preferiu não se identificar.

O autarca entende que os imigrantes "fazem falta ao concelho porque preenchem uma lacuna de mão-de-obra". Por outro lado, apela às autoridades competentes para "reduzir a burocracia e ajudar os agricultores a legalizar a situação dos trabalhadores estrangeiros".