13.10.08

Bispo de Fátima adverte que crise financeira deve levar a rever modelo de bem-estar do Ocidente

António Marujo, in Jornal Público

Peregrinação de 13 de Outubro juntou muito menos fiéis no santuário que em anos anteriores


A actual crise financeira internacional deve levar-nos a interrogar sobre "os nossos modos de vida e o modelo de felicidade e bem-estar" que tem predominado no Ocidente, disse ontem o bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto.

O bispo falava na conferência de imprensa que antecedeu o início das cerimónias da peregrinação aniversária de 12 e 13 de Outubro, no santuário. Referindo-se à situação que se vive actualmente a nível político-económico, o bispo falou do falhanço de um modelo assente no "consumismo desenfreado". A actual crise deve levar a "rever a relação com o dinheiro, as poupanças, o recurso ao crédito e a cooperação entre Estados".

Criticando um "sistema financeiro desligado da economia", que "perde a cabeça" por se colocar a si mesmo "como um fim", o bispo considerou necessário "rever os sistemas de remuneração dos dirigentes de instituições financeiras, que são verdadeiramente escandalosos". A actual situação "exige um compromisso de todos", no sentido de criar "novos modos de vida, novos modelos económicos e financeiros" e de "interrogar sobre práticas especulativas que visam a rentabilidade máxima a curto prazo".

O mercado financeiro deve reorientar-se para "investimentos socialmente responsáveis e para a economia produtiva", tendo em conta as "exigências ambientais". Já na missa da manhã, no santuário, perante muito menos gente que o habitual numa peregrinação de Outubro, António Marto falara da "dimensão mais profunda da crise". Trata-se de uma crise "de comportamentos e de valores - da transparência, da justiça para o mundo inteiro, de um sistema que assenta na avidez do lucro imediato".

As primeiras vítimas da crise "são os mais pobres e desfavorecidos", acrescentou o bispo perante os jornalistas. E o sistema financeiro foi abalado "nos próprios fundamentos". "Num país onde o fosso entre ricos e pobres é dos mais altos da Europa, temos de recordar uma frase de Kant: 'As coisas têm um preço, mas os homens têm dignidade'", concluiu o bispo.

A peregrinação que termina esta manhã é presidida pelo arcebispo de Vílnius (Lituânia), cardeal Audrys Backis, que se apresentou como "peregrino entre peregrinos". Referindo-se ao que se passa actualmente nos países do Leste europeu, o cardeal Backys afirmou: "Com o ingresso na União Europeia, libertámo-nos do jugo soviético, mas fomos invadidos não só por coisas boas e pela liberdade, mas também pela ditadura do relativismo."

"A ajuda que recebemos da Europa Ocidental não é sempre uma ajuda positiva", disse o cardeal, para se referir à "crise de valores" que atravessa a Europa e os países de Leste em particular: "Foi uma transição difícil: um país que era como uma grande prisão, de repente encontrou-se livre de fazer o que se quer. Foi difícil porque o comunismo destruiu muitos valores. Levará uma geração pelo menos para reconstruir os valores cristãos."