João Saramago / A.S.R. / J.C.M., in Correio da Manhã
Idosos a salvo da solidão
Eva Plácido vive acamada num quarto andar da rua Marquês de Ponte de Lima, em Lisboa. Viúva e sem família, é graças ao apoio domiciliário integrado da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que diariamente recebe as refeições, medicação e dois dedos de conversa das ajudantes familiares. Enquanto toma o pequeno-almoço, Eva Plácido confessa já não saber a idade.
"Tenho a cabeça muito cansada", diz. É Sueli Almeida que recorda que são 94 anos. Proveniente do Brasil, Sueli tem uma mesma paixão que Eva Plácido: ambas gostam de cantar. ‘Cravo roxo à janela’ é a canção que todos os dias pela manhã a idosa lhe canta enquanto a jovem lhe limpa a casa e cuida da higiene. "Uma das nossas tarefas é estimular a pessoa. E cantar estimula", disse Sueli Almeida.
Em Portugal, é desenvolvida uma política de apoio à terceira idade centrada em manter o idoso na sua habitação. O serviço de apoio domiciliário cresceu 75,5%, entre 1998 e 2006. Os centros de dia tiveram um crescimento de 40,6%, enquanto a construção de novos lares e residências para idosos teve um aumento de 28,4%.
O concelho com mais pessoas na terceira idade é Lisboa, onde vivem 120 mil idosos. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa trabalha diariamente com 5300 destes idosos. Segundo Rui Cunha, provedor da instituição, há, na capital, um processo de transformação na soluções de apoio aos idosos. "Portugal tinha há não muitos anos uma resposta tipificada para os nossos mais velhos: o lar. Há anos que a mais moderna doutrina europeia de boas práticas nesta área de intervenção aponta para que o lar seja a última das soluções", disse o provedor ao CM.
"Se os mais idosos tiverem à disposição Centros de Dia, se tiverem Apoio Domiciliário, podem e devem manter-se o mais possível no meio onde sempreviveram", acrescentou Rui Cunha, sublinhando que este é também um trabalho de "combate à solidão".
Em São Paulo, Bica, Joaquina Alves Sousa, de 96 anos, vive numa pequena casa sem casa de banho. Acamada esde há seis meses, sem família, foi graças ao trabalho da Santa Casa que não caiu no abandono, contou ao CM a amiga Maria do Carmo, de 74 anos. O apoio domiciliário integrado da Santa Casa cresceu de três para 20 freguesias da capital. O objectivo nos próximos três anos é estender o apoio às 53 freguesias.
DISCURSO DIRECTO
"A PORTA DA SANTA CASA ESTÁ ABERTA", Rui Cunha, Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa
Correio da Manhã – Qual a dimensão do trabalho da Santa Casa?
Rui Cunha – Trabalhamos com mais de 2700 crianças e com mais de 5300 idosos. Temos, desde 2006, uma média acima de 50 mil atendimentos de pessoas nos mais diversos campos de intervenção social. Formamos anualmente centenas de jovens que, após formação, têm uma taxa de empregabilidade acima dos 80%. Atendemos nos nossos hospitais, em 2007, mais de 120 mil pessoas. Os lugares em creche aumentarão até ao fim do ano 40,37%, quando comparados com 2005.
– Quais as maiores preocupações da instituição?
– A qualidade das nossas respostas e disponibilidade total para os mais necessitados. Queremos que os cidadãos saibam que a porta da SantaCasa está aberta e que aqui encontram respostas.
– De que forma os jogos sociais permitem concretizar esta obra?
– São o nosso principal financiador. Muitas vezes os portugueses que jogam não têm a percepção instantânea de que estão, para além da procura da fortuna, a ter um gesto de solidariedade de grande alcance.
SAÚDE CARA É AMEAÇA
A Organização Mundial de Saúde (OMS) alerta que "os custos elevados, a falta de confiança no sistema de saúde e as desigualdades de acesso são ameaças à estabilidade social". No seu relatório anual subordinado ao tema ‘Cuidados de saúde Primários – Agora mais do que sempre’, a OMS sustenta que "as desigualdades no acesso a cuidados médicos são hoje maiores do que em 1978" entre países ricos e pobres. A OMS recomenda também que o sistema de saúde deve envolver todos os sectores da sociedade civil e empresas.
NÚMEROS
361
milhões de euros foram gastos em 2006 em Portugal na prestação de cuidados aos mais velhos em casa, lares e centros.
2300
locais prestam uma resposta social em Portugal aos idosos em centros de convívio, de dia, lares e serviço de apoio ao domicílio.
70%
dos idosos rastreados em hospitais e lares registaram perdas de peso superiores a 5% nos últimos três a seis meses.
FESTIVAL HIP HOP
É já no próximo sábado que se realiza a grande final do Hip Hop Pobreza Stop no Pavilhão Multiusos de Gondomar, onde jovens talentos do rap e do graffiti vão mostrar o que têm a dizer ao País.
SONHO DE UM MUNDO REAL
Juntaram-se há três anos por brincadeira e hoje escrevem e cantam sobre um Mundo perfeito, onde a igualdade reina e o racismo não existe. Naturais do Barreiro, Treks e Mc Igor (Márcio Faquinha e Igor Ribeiro, respectivamente), formam os Snipers Gang e, a dois dias da final, confessam-se nervosos com a estreia no mundo do espectáculo. "Já fazemos música há uns anos, mas esta é a nossa primeira experiência ao nível público e estamos ansiosos", revelou ao CM o rapper MC Igor.
Fruto de apenas dois dias de trabalho intensivo e de algumas noites sem dormir, ambos os jovens são os autores de ‘Apenas um Sonho’, "um mundo com que todos sonham, sem grandezas, onde todos somos iguais", como resumiu Treks. Um cenário em que nenhum dos dois acredita, mas com o qual pretendem vencer. "Sabemos que este mundo não é possível, mas todos falam do que vivem e do que vêem, e nós, pelo contrário, falámos do que queríamos que a realidade fosse, e essa é a nossa chave", revelaram.
Admitem que vencer seria "um bónus", uma vez quem nem contavam chegar à final, mas acrescentam: "Se chegámos até aqui, agora é para ganhar!"
PARA LHE DAR COM A ALMA
Quem olhe para a família de Carlos Ferreira, de 16 anos, pensa automaticamente que ele só podia enveredar pelo mundo da música. O pai é cantor, a mãe tem uma produtora e, no seguimento dessa linhagem, ele quer agora ser MC. Mas nem sempre foi assim: o jovem teve alguma dificuldade em se libertar da timidez.
"Ele tinha receio de subir aos palcos, mas depois começou a gostar de música e a fazer as coisas dele. Posteriormente, começou a fazer duetos com a Melissa, que é namorada dele", disse a mãe do jovem rapper. A dupla não será desfeita em Gondomar no próximo sábado. "Ela canta música ligeira mas vai fazer coros para mim. Também gosta do que ouço", reforça o jovem concorrente.
O cruzamento entre a música ligeira e o hip hop até pode parecer inusitado,masoMCGlowa, sempre que questionado sobre o assunto afirmou: "Ela tem uma voz excepcional."
Carlos diz querer falar de desigualdades sociais, do racismo, da pobreza. No fundo, quer dizer o que lhe vai na alma. "O meu sonho é seguir esta carreira", salienta.
Para tal, frequenta actualmente aulas de piano e o Conservatório na Maia.
EMBELEZAR A CIDADE SUJA
Quatro vozes e uma só vontade: utilizar o graffiti para dar outra cor à sua cidade e ajudar a esconder algumas das suas faces mais obscuras. Os jovens, com idades entre os 19 e os 20 anos, já começaram a plasmar nas paredes de Gondomar o seu ideal.
O CM foi encontrá-los junto a um parque de estacionamento, onde pintaram uma parede de 22 metros. Tudo em menos de oito horas. "Falámos com o proprietário da casa e do parque e eles concordaram. A parede estava suja com outras pinturas desordenadas. As pessoas gostaram tanto que quando passavam perguntavam porque é que não fazíamos o mesmo noutras paredes", disseram os finalistas do Hip Hop Pobreza Stop.
Apesar disso, os jovens vêem o graffiti como um hóbi de que dificilmente poderão fazer vida.
O projecto que vão apresentar no próximo fim-de-semana é de um jovem do movimento hip hop a cumprimentar um mendigo. "Demonstra que somos solidários com quem sofre e é pobre", afiançaram ao CM.


