Ana Cristina Pereira, in Jornal Público
Isabelle Torrés separa o pão que ocupa a mesa longa, atulhada. A argelina várias vezes substituiu "pessoas em empresas de limpeza" sem nunca ocupar um lugar que fosse dela. Criou primeiro os seus cinco filhos - agora com 22, 21, 18, 16 e 12 anos. E agora que os vê crescidos e quer um emprego a sério, já conta 45 anos. Entrou no Projecto para o Emprego, do Groupe L'Esprite Papillon, que recolhe pão não vendido por padarias industriais e artesanais, de centros comerciais e estabelecimentos públicos e semipúblicos em Marselha e arredores e o pesa, separa, corta, seca, transforma em comida para animais e embala.
A presidência francesa da União Europeia quis dar este exemplo "inovador" aos participantes na Mesa-Redonda Contra a Pobreza e a Exclusão Social. A cada ano, o projecto recicla 260 toneladas de pão e acolhe 50 a 55 pessoas, muitas como Isabelle - magrebinas com escassa qualificação e alguma idade que ao longo de seis meses, no edifício amplo rente à estrada, descobrem gestos, vontades, aprendem a interagir, a respeitar a cadência da cadeia de trabalho, a cumprir um horário.
O apoio, diz Ahmed Nabil, o director, faz-se em três fases. Primeiro, recebem a pessoa, dão-lhe as boas vindas, tratam de integrá-la. Depois, identificam as suas forças, as suas fraquezas, tudo o que pode ser usado na construção do seu projecto de vida. Por fim, preparam-na para procurar um emprego. Resulta com um em cada quatro.
Boubadjou Ballaziz pediu folga para contar como um dia aqui chegou desencorajado e ganhou alento. Era supervisor numa empresa de construção. Dispensaram-no em 2000, tinha 49 anos.
Durante seis anos não se reintegrou. "Já não queria acordar, sair da cama." Aqui recuperou a confiança. Fez mais de 50 candidaturas. "Tive muita sorte", suspira. Trabalha a tempo inteiro numa associação que se dedica a reabilitar famílias. Ocupa-se de quatro. Todos os dias passa duas horas com cada uma.
O projecto não é auto-suficiente. "Isto é economia solidária", explica Ahmed Nabil, ao sair de uma sala apinhada de caixas repletas de pão a secar. Recorre a fundos de diversos organismos públicos. Por exemplo, o Estado paga 60 por cento de cada salário (mínimo). Evita-se o desperdício de toneladas de pão enquanto se apoia a integração de dezenas de pessoas. Algumas, sublinhou o presidente da organização não-governamental, Michael Saroochhi, quando aqui chegam "estão mais perto da sobrevivência do que da vida".
Portugal é o 9.º país da UE-25 com as mais altas taxas de pobreza, a par da Irlanda e Estónia. A Letónia é quem está pior.


